Entrevista sobre a Prevenção do Suicídio
ENTREVISTA
Clínica da Família (CF)
Entrevistado: Ana Cardoso (AC)
CF 1. Considera que o suicídio é uma realidade muito presente ainda nos nossos dias?
AC. Sim, sem dúvida. Para termos uma ideia mais precisa, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), suicidam-se diariamente em todo o mundo cerca de 3000 pessoas – uma a cada 40 segundos – e, por cada pessoa que se suicida, 20 ou mais cometem tentativas de suicídio. Em Portugal, a taxa de suicídio, segundo a Direcção Geral de Saúde (DGS) aumentou com o período da crise, no entanto, ainda assim não existem estudos com base na revisão bibliográfica que comprovem que a ligação entre a crise económica e a mortalidade por suicídio em Portugal.
CF 2. De acordo com os últimos dados, em que idade é que a taxa de suicídio é mais elevada?
AC. De acordo com o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, embora a taxa de suicídio tradicionalmente seja maior entre os idosos, tem vindo a aumentar entre a população mais jovem nos últimos anos.
CF 3. Existem factores de risco?
AC. Sim. As perturbações mentais, particularmente a depressão e o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, constituem um factor de risco significativo para o suicídio na Europa e América do Norte, enquanto em países asiáticos a impulsividade desempenha um papel considerável. Existem também factores pessoais, como a idade jovem, ou superior a 45 anos, morte de um ente querido, género masculino, doença crónica incapacitante ou terminal, desestruturação familiar e factores psicológicos, como o facto da pessoa não ter um projecto de vida, sentir uma desesperança contínua ou acentuada, culpabilidade elevada, perdas precoces, etc.. O desemprego, o fim de uma relação, a falta de apoio familiar, a reforma e o acesso (fácil) a meios letais, são outros factores de risco em relação aos quais se deve estar atento.
CF 4. A Doutora Ana Cardoso trabalhou durante 10 anos na Consulta de Prevenção do Suicídio, no Hospital Miguel Bombarda. De acordo com a sua experiência, este fenómeno é mais comum nos homens ou nas mulheres?
AC. Não só de acordo com a minha experiência, mas também em função dos dados que têm sido publicados, verifica-se que a taxa de suicídio é mais elevada no homens, enquanto que as mulheres registam mais tentativas de suicídio.
Uma explicação possível refere-se ao método que é utilizado e à impulsividade mais frequentemente verificada por parte de pessoas do género masculino.
CF 5. É sabido que é no Alentejo onde a taxa de suicídio é mais elevada. Na sua opinião, o que pode ser feito para reduzir a elevada taxa de suicídio verificada no nosso País?
AC. O compromisso político é essencial para garantir que a prevenção do suicídio recebe os recursos de que necessita, bem como a necessária atenção por parte dos líderes nacionais e regionais. Na minha opinião, tem também de haver um aumento dos esforços governamentais no combate à redução de factores de risco ambiental, socioeconómico e outros, bem como na melhoria de acesso aos serviços. É essencial facilitar o acesso aos cuidados, sobretudo em regiões mais isoladas, como acontece no Alentejo.
Outro aspecto que merece ser destacado tem a ver com a formação dos técnicos. Também de acordo com estudos já publicados, verifica-se que uma taxa significativa de pessoas que cometem suicídio tiveram em contacto com os cuidados de saúde primários, meses antes. Perante estes dados, podemos concluir que poderá não estar a ser feita uma avaliação cuidadosa e que, alguns sinais de alerta, poderão estar a ser pouco valorizados. Para isso, é fundamental investir na formação e no treino adequado dos profissionais de saúde. Muitas vezes a depressão manifesta-se mais por sintomas orgânicos, físicos, do que propriamente por sintomas emocionais, o que poderá proporcionar a desvalorização da queixa.
Visto que a resposta por parte dos cuidados de saúde primários ainda é escassa e está longe de responder à necessidade emergente de intervir precocemente, a Clínica da Família procura também intervir a esse nível, disponibilizando valência que actuam neste campo, como é o caso da Psicopedagogia.
CF. 6. Enquanto Psicopedagoga, o que acha que pode ser feito para possibilitar uma diminuição do número de suicídios?
AC. Enquanto psicopedagoga, e de acordo com a formação que tive na área na prevenção do suicídio, o maior desafio passa, sem dúvida, por facilitar o acesso à informação e, dessa forma, actuar também no combate ao estigma. Hoje em dia há ainda quem evite procurar ajuda por causa do estigma associado às doenças do foro mental, o que faz com que as consequências no futuro para a vida destas pessoas e respectivos familiares, possam ser ainda mais negativas.
Vale a pena também referir que a ajuda de amigos e familiares, ainda que crucial, pode não ser suficiente. Às vezes é preciso uma intervenção terapêutica especializada, visto que haverão sempre aspectos que a pessoa poderá não querer contar àqueles que lhe são mais próximos e com quem tem um vínculo afectivo.
CF. 7. Que significado pode ter a comemoração do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio?
AC. A comemoração deste dia é importante para sensibilizar as pessoas sobre esta temática e as alertar para a importância de cuidarem da saúde mental. Isso permite que se actue na redução do estigma e, consequentemente, se facilite o acesso a cuidados especializados. Procurar ajuda é um acto de coragem e não de fraqueza, como, infelizmente, ainda há quem considere.
CF. 8. Que mensagem considera ser importante de sublinhar para aqueles que podem estar a ler esta entrevista e que precisam de ajuda?
AC. Apenas a referir que a mudança depende do próprio. No entanto, às vezes esse processo de mudança é árduo e, nesse sentido, a pessoa pode não conseguir essa transformação sozinha. Não é não querer mudar, é não conseguir. É isso às vezes que os outros não compreendem e daí a necessidade de procurar ajuda.
Já dizia o filósofo William James, qualquer ser humano pode mudar de vida, se mudar de atitude. Que essa mudança de atitude para aqueles que não estão bem e que no fundo, bem lá no fundo, sabem que precisam de apoio, comece hoje ao ponto de terem a coragem suficiente para pedir ajuda e … começar. Será, certamente, o princípio de uma nova fase.
Não há maior gratificação para o profissional de saúde mental do que ver os seus pacientes fazerem uso daquilo que lhe foi ensinado.